sexta-feira, 16/10/2026

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Diário de Campinas

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Jacutinga viaja 30 km pela Mata Atlântica e retorna ao seu habitat, surpreendendo os cientistas

Um macho de jacutinga recentemente surpreendeu os pesquisadores do Projeto Jacutinga ao percorrer 30 quilômetros pela Mata Atlântica e retornar ao ponto de soltura um ano após sua liberação. Esse feito, monitorado por transmissores…

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Um macho de jacutinga recentemente surpreendeu os pesquisadores do Projeto Jacutinga ao percorrer 30 quilômetros pela Mata Atlântica e retornar ao ponto de soltura um ano após sua liberação. Esse feito, monitorado por transmissores GPS, representa um marco importante nas atividades de reintrodução da espécie na Serra da Mantiqueira, que já dura uma década.

Na semana passada, a SAVE Brasil soltou mais oito jacutingas em São Francisco Xavier, elevando para 82 o total de aves reintegradas à natureza desde 2016, quando a primeira soltura ocorreu na região. O projeto tem demonstrado avanços significativos nas taxas de sobrevivência: enquanto nos primeiros anos cerca de 50% das aves sobreviviam, atualmente essa taxa chegou a impressionantes 80% devido a melhorias nos processos de treinamento e reabilitação.

Antes de serem soltas, as jacutingas passam por um rigoroso treinamento de cerca de dois meses, onde aprendem a se alimentar, reconhecer predadores e desenvolver comportamentos essenciais para a vida na floresta. “Uma jacutinga que nasceu sob cuidados humanos precisa estar equipada para enfrentar os desafios do seu habitat natural”, explica Alecsandra Tassoni, coordenadora do projeto.

Desde 2025, a utilização de dispositivos GPS tem permitido um monitoramento mais detalhado dos deslocamentos das aves. Isso não só fornece dados sobre sua localização, mas também sobre como elas se movem e utilizam o espaço da Mata Atlântica. O retorno de uma das jacutingas ao local de soltura após um ano é uma evidência animadora sobre a adaptação da espécie ao seu ambiente.

O projeto também se propõe a entender como as jacutingas conectam diferentes áreas da Mata Atlântica, já que aves reintroduzidas foram avistadas em Monte Verde, em Minas Gerais. Hoje, 32 jacutingas estão sendo monitoradas, embora a vida útil dos transmissores seja limitada, o que pode dificultar o acompanhamento a longo prazo.

Ainda assim, o maior desafio do Projeto Jacutinga é garantir a reprodução e a formação de uma população autossustentável. Segundo a SAVE Brasil, são necessários cerca de 200 indivíduos para que a espécie se mantenha viável na região, com uma proporção equilibrada entre machos e fêmeas. O projeto já identificou ninhos e ovos férteis, mas a confirmação de jacutingas nascidas na natureza que alcancem a fase adulta ainda é uma meta a ser atingida.

As jacutingas não são apenas importantes para a sua sobrevivência, mas também para a saúde ecológica da Mata Atlântica, já que atuam como dispersoras de sementes. Elas são observadas consumindo frutos nativos logo após a soltura, contribuindo assim para a regeneração da vegetação. O impacto dessa atividade está sendo estudado em uma pesquisa de doutorado sob a supervisão do professor Mauro Galetti.

A participação da comunidade local no monitoramento das jacutingas tem sido essencial para o sucesso do projeto. No primeiro semestre de 2026, a população compartilhou mais de 45 registros das aves em seu habitat. “O envolvimento dos moradores é uma conquista significativa, pois eles agora ajudam a acompanhar o retorno da espécie”, ressalta Alecsandra.

Com dez anos de reintrodução, o foco do projeto continua a ser não apenas a devolução das jacutingas à floresta, mas a criação de condições para que elas prosperem e formem uma população que possa sobreviver sem intervenções futuras.