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Enem: cursinhos populares preparam alunos em vulnerabilidade social

Quem vê Raimundo dos Santos Nascimento, de 62 anos, em uma sala de um cursinho popular da Ceilândia, no Distrito Federal, não faz ideia da trajetória que este carioca percorreu até esta preparação para…

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Quem vê Raimundo dos Santos Nascimento, de 62 anos, em uma sala de um cursinho popular da Ceilândia, no Distrito Federal, não faz ideia da trajetória que este carioca percorreu até esta preparação para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Ele é um dos 13.821 candidatos do Enem 2026 com mais de 60 anos.

Vindo do Rio de Janeiro há 16 anos, Raimundo viveu cerca de seis deles em situação de rua no Plano Piloto, em Brasília. Sua retomada de perspectiva começou no Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua (Centro POP) e na Escola de Meninos e Meninas do Parque (EMMP), localizada no Parque da Cidade Sarah Kubitschek, da capital federal. Foi lá onde concluiu o ensino fundamental. Seu foco, agora, é conquistar uma vaga na graduação de psicologia na Universidade de Brasília (UnB).

 Cursinhos populares apoiam preparação de estudantes para o Enem. Raimundo da Silva no Curso preparatório Jovem de Expressão. Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

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“Quando eu era mais novo, deixei de estudar. Mas, eu gosto de estudar. Em 2020, eu fiz a prova do Enem e tirei 640 [pontos] na redação. Então, eu conheci o [cursinho] Jovem de Expressão e decidi fazer o preparatório. Eu tenho que me formar. Agora, com 62 anos, eu me sinto jovem.

Cursinho popular

O cursinho comunitário onde o Raimundo adquire conhecimentos é o Jovem de Expressão (JEX), com 17 anos de experiência no preparo gratuito para o Enem, para o Programa de Avaliação Seriada (Pas) da UnB e para outros vestibulares.

A unidade é um dos 1.535 cursinhos populares da Rede Nacional de Cursinhos Populares (CPOP), que atende mais de 58 mil estudantes que cursaram a educação básica na rede pública, com prioridade para pessoas negras, indígenas, quilombolas, pessoas com deficiência (PCD) e de famílias de baixa renda (renda por pessoa de até um salário mínimo, R$ 1.621, em 2026).

A iniciativa tem o objetivo de facilitar o acesso ao ensino superior de jovens e adultos que enfrentam barreiras socioeconômicas. Na prática, o cursinho oferece uma oportunidade real para quem não tem condições financeiras de arcar com o ensino privado ou conciliar horários tradicionais porque passa o dia trabalhando.

Realidade que se encaixa no perfil da diarista Márcia Regina Carvalho Damasceno Dias, que tinha parado de estudar há 20 anos e voltou à cadeira de estudante por incentivo da filha que, atualmente, está na faculdade.

Regina Carvalho Damasceno no Curso preparatório Jovem de Expressão. Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

Mesmo com cansaço decorrente da dupla jornada, de segunda a sábado, Márcia já tomou sua decisão. “Quero fazer nutrição. Fiz o Enem no ano passado. Infelizmente, não tirei a nota que eu queria. Neste ano, cheguei já no finalzinho [do curso] antes de fazer a prova. Mas, tem sido muito bom. É um momento divisor de águas, porque estou com a expectativa lá em cima.”

“Concluí o ensino médio em 1900 antigamente. Quando eu decidi fazer o curso superior, abri o caderno e eu falei: ‘Meu Deus, como é que eu vou estudar?’ Fiquei perdida. Então, minha filha me falou sobre esse cursinho e resolvi: ‘Eu quero’”, afirmou a diarista.

Quem divide a mesma sala de aula é a caixa de um supermercado Gilmara Pereira Braga, de 47 anos. Ela terminou o ensino médio em 2000. O que parecia distante, agora, se desenha como um sonho de um futuro melhor. “O cursinho me oferece um conhecimento amplo muito importante. Quando eu cheguei aqui, tinha pavor de matemática. O medo foi embora quando falei com o professor que é muito bom.” Nas novas perspectivas, Gilmara quer se capacitar para trabalhar com educação especial. “Quero muito entrar na Universidade de Brasília e gostaria de fazer psicologia. Muitas crianças são excluídas da educação e não têm possibilidade de evoluir. Acho importante ter profissionais que olhem para crianças especiais”, reflete.

Outro que se dedica ao preparo do Enem é produtor musical e DJ [disc jockey], Miguel Lacerda, de 20 anos, estudante do Jovem Expressão há dois anos. O artista valoriza a capacitação para entrar na disputa por uma vaga na universidade em ampla concorrência. “Como uma pessoa periférica, eu não teria tantas possibilidades econômicas de acessar outros cursinhos. Por isso, esse aqui é extremamente importante pra mim. Além dele estar perto, aqui na minha periferia, o cursinho consegue me dar o conhecimento que eu preciso para ingressar [no ensino superior] pelo Enem.”

Suporte técnico e financeiro

Para os cursinhos populares, a Rede Nacional de Cursinhos Populares (CPOP) fornece apoio financeiro de até R$ 163,2 mil por unidade selecionada para o pagamento de professores, coordenadores e apoio técnico-administrativo e compra de materiais.

O coordenador pedagógico do projeto na Ceilândia, Rodrigo da Silva Soares, relatou à Agência Brasil o impacto deste investimento na unidade. “Por mais que sejamos um cursinho voluntário, isso envolve custos. E ter o recurso do MEC que vem para a gente fortalece muito a continuação do trabalho”.

O professor lista como o dinheiro é empregado no cotidiano da instituição comunitária. “É muito importante quando se tem o mínimo de recurso para poder fazer a gestão, para poder dar apoio até para o voluntário que está aqui, pagar a passagem, um lanche e fazer alguma saída de campo com a galera daqui.”

Pela ótica de aluna beneficiária do Jovens de Expressão há dois anos, Azize Quemel, de 28 anos, considera oportuna políticas públicas como essa que custeiam iniciativas voluntárias de apoio a adultos historicamente expostos à falta de recursos materiais, sociais e de acesso direitos básicos garantidos pelo Estado. “O ‘Jovens de Expressão’ permite aos moradores de periferia estarem nesses espaços porque um cursinho pré-vestibular é caro e, por isso, só vemos filhos de patrões fazendo. Mensalmente, não era viável para a gente.”

Educadores e apoio pedagógico

A Rede Nacional de Cursinhos Populares (CPOP) do MEC envolve mais de 21 mil educadores e equipe de apoio pedagógico nas atividades, em todo o país. Profissionais como a Maria Paula Cândida Reis, apoiadora pedagógica deste cursinho comunitário coordenado pelo professor Rodrigo.

Maria Paula faz a ponte entre a estrutura do cursinho (grade, folha de ponto, professores, reuniões) e as necessidades reais dos estudantes. Entre uma e outra atribuição pedagógica, como organizar simulados e aulões de revisão, Maria Paula se vê diante de histórias de alunas e alunos comprometidos e assíduos, principalmente, porque não conseguiram estudar em outra fase da vida.“Nosso cursinho não é focado no conteúdo porque cada um tem sua experiência, sua vivência e a Ceilândia é um território muito rico em saberes muito valiosos. E poder compartilhar na turma, entre eles, que têm idades muito diferentes, é legal.” Maria Paula fica feliz em fazer parte da mudança de vida de vários estudantes que passaram pela unidade.

 Maria Paula Cândida Reis no Curso preparatório Jovem de Expressão. Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

“Educação transforma. Muda trajetórias. Eu consigo ver a importância deste trabalho, que parece tão pequenininho, tão formiguinha, mas o estudo tem um impacto muito grande na vida das pessoas, principalmente do pessoal da periferia”, avalia Maria Paula Cândida Reis, apoiadora pedagógica do Jovens de Expressão.

Outra colaboradora do Jovem de Expressão (JEX) beneficiada pelos investimentos do Ministério da Educação (MEC) é psicóloga Yasmin Moreira, contratada para ajudar os estudantes do cursinho a lidar com a ansiedade antes das provas, a sobrecarga de estudos e o medo da reprovação. A profissional faz a escuta ativa, em rodas de conversa, para evitar que o estudante abandone o cursinho diante das dificuldades cotidianas ou da necessidade imediata de renda. “O acesso à saúde mental também é necessário, principalmente, quando se trata da nossa juventude periférica, que está tentando acessar outros espaços e alcançar outras coisas.”

Nos momentos de trocas entre os frequentadores do espaço, Yasmin vê muitas potencialidades nos jovens e percebe os resultados desse processo. “Nas rodas, eles enxergam uns aos outros, entenderem que os contextos são parecidos, mas que eles têm, sim, possibilidades. Esse espaço [do cursinho] é também de potencializar, de acolher o sofrimento quando ele vem.”

Auxílio-permanência para estudantes

O apoio da rede do MEC também inclui auxílio-permanência R$ 200 mensais por seis meses a cada estudante matriculado nos cursinhos pré-vestibulares comunitários e populares selecionados pelo MEC, limitado a 40 alunos por instituição.

O valor recebido ajuda a dançarina de hip-hop, Victória Santos, de 16 anos, a se dedicar exclusivamente aos estudos para entrar no curso de artes cênicas na UnB. Ela quer ser professora, antes de ganhar a vida como artista.

Victória ficou sabendo da vaga no cursinho pelo pai, que é professor de matemática da educação básica. Com a oportunidade, a jovem deixou o estágio nesta reta final de preparação e o dinheiro do auxílio permanência tem sido destinado às despesas domésticas. “Minha vida é muito corrida. Essa bolsa tem sido essencial. Com ela, consigo me manter e tem ajudado em minha casa. Pode parecer pouco, mas ajuda muito a pagar minhas continhas, fazer um lanche e tal.”

Em 2025, Azize Quemel retomou os estudos 11 anos depois de concluir o ensino médio. Neste intervalo, a jovem vendeu bolos para se manter financeiramente, mas, atualmente, está desempregada. Ela quer mais da vida e conta que o auxílio-permanência tem ajudado a se manter firme na jornada do pré-vestibular para se tornar bacharel em audiovisual pela UnB ou produtora cultural pelo Instituto Federal de Educação Ciência e Tecnologia de Brasília (IFB). “A bolsa-permanência ajuda na movimentação diária para estarmos aqui. Mas, o dinheiro também salva nos apertos, quando caem R$ 200 na conta, e a gente fica mais aliviado.”

Enem

O Enem 2026 será aplicado em dois domingos, nos dias 8 e 15 de novembro.

A abertura dos portões está marcada para 12h, no horário de Brasília. O fechamento ocorrerá às 13h, quando ninguém mais poderá entrar no local de aplicação das provas. Estas terão início oficialmente às 13h30.

No primeiro dia, os participantes farão as provas com 45 questões de linguagens, códigos e suas tecnologias (incluindo língua portuguesa, literatura, educação física, artes e a língua estrangeira escolhida: inglês ou espanhol); ciências humanas e suas tecnologias (história, geografia, filosofia e sociologia); e redação. Os mais de 5 milhões de candidatos inscritos confirmados terão cinco horas e 30 minutos para responder às questões e marcar o cartão-resposta.

No segundo domingo, serão aplicadas as provas de matemática e suas tecnologias ciências da natureza (química, física e biologia) e suas tecnologias, com duração de cinco horas.

Crédito da imagem: Valter Campanato/Agência Brasil